Virada nos EUA prejudica Amrica Latina 

JORGE CASTAEDA 

Traduo de Clara Allain

Especial para a Folha 

Pelo efeito sobre a margem de manobra e a capacidade de negociao do presidente Bill Clinton, pelo impacto ideolgico da vitria avassaladora da direita republicana e pelas repercusses do  sim dado na Califrnia  Proposta 187, relativa aos direitos dos estrangeiros no-documentados no pas, as eleies norte-americanas de 8 de novembro podem transformar-se numa das mais significativas em muitos anos para o Mxico e para a Amrica Latina. Elas correm o risco de anular as oportunidades abertas pela chegada ao poder dos democratas, em 1992.

Clinton  hoje um presidente ferido no de morte, mas seriamente. Ele vai enfrentar dificuldades insuperveis no campo da poltica nacional, sobretudo no que diz respeito  aprovao de uma reforma de fundo do sistema de sade. Talvez ele consiga deter a ofensiva conservadora dos republicanos recm-eleitos, mas sua prpria agenda ser, sem dvida, congelada at 1996.

Na rea da poltica externa provavelmente acontecer a mesma coisa, embora em menor grau. Os novos dirigentes republicanos da Cmara e do Senado, de Jesse Helms a Newt Gingrich, j manifestaram sua inteno de imprimir uma nova orientao  poltica externa norte-americana, em mbitos to diferentes quanto o Gatt, a assistncia a outros pases, a participao em misses sob o comando da ONU e o envio de tropas ao Haiti e outros pases.

Nessas condies, dificilmente sero concretizadas as esperanas dos presidentes latino-americanos convocados a Miami por Clinton, de ver realizados seus sonhos de uma grande zona hispano-americana de livre comrcio.

Eleies 

Clinton  hoje um dirigente cuja reeleio obsesso nica de todo presidente norte-americano est em risco. Se antes ele se via obrigado a subordinar alguns aspectos da poltica externa s questes da vida interna norte-americana, agora tal inclinao tender a exacerbar-se. Tudo se sujeitar aos imperativos da campanha de 1996: Cuba, Haiti, a questo dos imigrantes, o livre comrcio, o combate ao narcotrfico, a devoluo do Canal do Panam etc.

Tendo em vista que os opositores mais perigosos de Clinton sero, entre outros, o governador da Califrnia, Pete Wilson, que assegurou sua reeleio graas em parte a uma campanha anti-imigrantes, e o senador Robert Dole, que comeou a rever seu tradicional apoio  abertura do mercado norte-americano, o ocupante atual da Casa Branca se ver forado a deslizar em direo a posies cada vez mais demaggicas.

Segundo efeito: o triunfo republicano ter consequncias polticas e ideolgicas substanciais e no puramente retricas ou superficiais. O trnsito iniciado em 1938 em direo  conformao de uma maioria republicana e conservadora no Congresso consumou-se, finalmente, em 1994. Em 1938, a perda da maioria por Franklin Roosevelt e o Partido Democrata ps fim ao New Deal; em 1948, a reconquista da maioria democrata alterou a correlao de foras partidria, mas no poltica.

Virada ideolgica 

Em 1964, a avassaladora vitria de Lyndon Johnson lhe garantiu uma maioria progressista no Congresso, para ratificar seus programas sociais e anti-racistas, mas esta foi efmera: desvaneceu-se em 1968. Assim, entre 1932 e 1994 predominou uma maioria conservadora no Congresso, embora os democratas dominassem formalmente. Hoje a maioria ideolgica se alinha com a partidria: trata-se, possivelmente, de uma mudana que ter longa durao.

O vcio profundo da democracia americana a absteno eleitoral do eleitorado pobre, negro e hispnico, e a alta participao dos eleitores brancos, anglo-saxes, suburbanos e de classe mdia a alta, acabou por se impor. A vitria republicana  a vitria de uma maioria homognea de uma minoria uniforme: mais de 50% dos 35%, quase todos  imagem do Sonho Americano: Bart Simpson e seu cl ao vivo, direto das urnas.

Aconteceu com Clinton o mesmo que aconteceu com Carter; ambos procuraram evitar que acontecesse com eles o que acontecera com Roosevelt e Johnson. Estes dois, acredita-se, penderam demais para a esquerda; a classe mdia os abandonou. Vem disso o fato de que os dois sulistas, Carter e Clinton, tenham pendido  direita, antes que a mesma coisa acontecesse a eles; ao faz-lo, perderam seu eleitorado tradicional, que se refugiou na absteno.

Clinton sacrificou a reforma do sistema de sade e conseguiu a aprovao de uma lei anti-criminosos e o acordo de livre comrcio com o Mxico. Os eleitores conservadores no o agradeceram pelo segundo tem; os progressistas no o perdoaram pelo primeiro. 

Isto significa que o vigor ou impulso dos novos dirigentes do Capitlio  muito superior quele que emana de um acaso, de um acidente ou uma surpresa. O portfolio de reivindicaes conservadoras no se limita a alguns temas tradicionais do republicanismo clssico. Inclui um extremismo cultural notvel por suas fobias antiaborto, antiimigrao, anti-homossexualidade, pr-religio e uma exaltao dos  valores americanos.

Os dogmas no costumam prestar-se a negociaes, nem mesmo no pas mais pragmtico de todos, e  provvel que a predileo clintoniana pela conciliao se choque com o fervor conservador da direita crist. Isto pode introduzir turbulncias preocupantes em pelo menos dois mbitos importantes das relaes entre a Amrica Latina e os EUA. Deixaremos de lado, por enquanto, um terceiro tema potencialmente conflitivo: o do aborto e do controle de natalidade, e o financiamento dos programas de planejamento familiar na AL.

O primeiro tema espinhoso ser um que j conhecemos: o combate ao narcotrfico. Os republicanos costumam atribuir a mxima importncia ao assunto e muitos extremistas reaganianos da cruzada antidrogas dos anos 80 ocupam posies prximas  nova direita.

 um tema intervencionista por excelncia, que permite colocar os problemas de forma maniquesta, condicionando todo tipo de apoios e preferncias comerciais e financeiras norte-americanas a seu cumprimento. A crescente ingerncia de Washington na luta antidrogas no interior de cada pas poder se intensificar, sobretudo se os Estados da regio no declararem, eles mesmos, guerra ao trfico.

Mas a consequncia mais negativa do maremoto conservador de 8 de novembro dir respeito  questo migratria. A nova maioria republicana em Washington tem uma agenda migratria e vai lev-la adiante. J comprovou que o tema mexe com a classe mdia, tanto a classe mdia conservadora e racista que reprova a presena de estrangeiros quanto aquela mais tolerante e liberal, que rechaa a ilegalidade e seus efeitos nocivos para sua prpria sociedade.

Se no promover um equivalente federal da Proposta 187, que busca subtrair direitos educacionais e de sade aos trabalhadores no-documentados e suas famlias, propiciar mudanas na lei migratria que restrinja o ingresso de migrantes sem documentos.

Imigrantes 

A poca do liberalismo migratrio de fato terminou nos EUA.

Tambm acabou a era durante a qual o tema migratrio permaneceu fora da agenda negociadora hemisfrica, salvo contadas excees conjunturais: Cuba de vez em quando, as Antilhas em determinadas ocasies. Convm recordar: so muitos os pases da Amrica Latina que enviaram uma alta porcentagem de seus habitantes mais de 5%, em alguns casos mais de 10% para trabalhar e viver nos Estados Unidos. O Mxico, quase toda a Amrica Central, boa parte do Caribe, Colmbia, Equador e Peru so naes fortemente expulsadoras de migrantes.

Para todos esses pases, e para seus respectivos governos, o fechamento norte-americano em matria de imigrao vai obrigar, cedo ou tarde, a uma negociao delicada e complexa. Os inevitveis termos desta negociao j anunciam o difcil dilema que ir se colocar: legalizao ampliada contra regulao compartilhada. As alternativas sero angustiantes para todos, e para o Mxico principalmente, devido  fronteira. Mas nenhum pas permanecer  margem da virada  direita nos Estados Unidos. Para a Amrica Latina, como sempre, muita coisa  decidida fora de casa.
